domingo, 3 de julho de 2016

Repetição maldita


Mais um morreu, e não foi de amor, nem de tédio. Não foi de fome e nem de tanto dançar. Foi de cacos de vidro e de palitos de dente. Corte no pescoço, olhos perfurados, calça e cueca até os joelhos, encontrado jogado e já frio nun banheiro sujo.

Assim acordo quase todos os dias. Mais um morreu. Mais um morreu. Mais um morreu. E eu continuo aqui. Continuo ouvindo piadas, vendo olhares, assistindo absurdos.

Tem dias que preferia estar nesta lista, mas é vida que segue. Vou pegando táxi escondido, andando sempre acompanhado, suando frio quando escuto um comentário, desviando de grupos, de pessoas, evitando ruas com bares, não pegando em sua mão, não beijando e muito menos abraçando.














Será se assim eu vivo ou cometo pequenos suicídios diários?



domingo, 17 de abril de 2016

Tchau querida


Todas as vezes que falarem “pela família”, vamos mandar um shot.


A única forma de acompanhar sua partida era fazendo piada da situação. Nem a racionalidade e o suposto coração gelado capricorniano anestesiaram minha dor. E dói (sem trocadilhos).
Te ver partir dói tanto que até parece um folhetim, “oh querida, eis aqui nossa separação, vais sem minha companhia, flameja meu coração”, e olha que não sou desses que fantasiam a realidade, que forçam choros e declarações, mas... você vai colocar suas malas em um carro, entrar, fechar a porta e me deixar. Vida, devolva minhas fantasias.

Passe protetor solar, dirija com cuidado, tome Sprite num domingo de ressaca, faça suas orações, dirija com cuidado, não esqueça do João.

Califórnia, Paris, Shangai, Cairo, Pequim, Kathmandu. Somos eu e você.  

quinta-feira, 10 de março de 2016

fim do verão

Pois eu falo da sinceridade. Agora o que acontece é algo nada surreal, é fora daqueles adjetivos que ficam bonitos, elegantes.

Eu falo da sinceridade marcada pela dança que nossas bocas fazem, do toque do meu dedo, do seu lábio, do seu cheiro, do meu esquecimento.







1,2,3,4.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A falsona do rolê





Naqueles dias fazia muito calor, o clubinho era apertado e a única coisa que eu pensava era numa cerveja gelada.
Mal sabia que enquanto ia ao bar, vários olhares cruzavam e criavam histórias onde a minha fidelidade era citada.
Tudo bem enquanto os banheiros estavam limpos. Ao som de guitarras os olhares continuavam e a ingenuidade da diversão me fascinava. Que pena.

5 anos depois carrego a faceta de falsona, aquela que sabia de tudo e protegia algum lado.
Eu só queria diversão e fui julgado por isso. Nunca nem soube o que aconteceu e até hoje você continua com sua desconfiança.

Não sou de desculpas e não me arrependo por não saber de nada. A partir daqui o azar é seu.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eae cara, rola rosto?



Entre as frestas das portas, olhos aparecem. Depois das 22h15 consigo escutar as inúmeras piscadas. O barulho é semelhante ao ruído que as patas das baratas fazem ao tocar a cerâmica da casa. Perturbador.   

Os olhos são de cor castanho escuro, castanho claro e esverdeado. Com 18, 42 e 54 anos, estão cheios de inveja, rancor, dor, raiva e ira.
Observam constantemente meus movimentos e não sei como, escutam minha respiração. Sabem o que estou sentindo. São vigias, guardas ocultos sem rostos.

As piscadas aumentam. Vou procurar compaixão preparando mais uma linha. Não me importo com os olhos, afinal, eles não são meus.
















Para onde seus olhos estão virados?



(photo by johnnys bird)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

meu amigo morreu



Eu tinha 18, ele tinha 33. Perguntou por telefone se por acaso eu teria um cabo que não lembro o nome, em 5 minutos chegou com um ipod cheio de músicas e descarregou  no computador.
Depois de copiar todas as suas músicas, me deu um beijo, pegou as chaves e disse até breve. 2 horas depois mandou um depoimento no Orkut dizendo que havia reencontrado uma grande paixão.

Quase todos os dias, durante 2 anos, escutei a playlist. Tinha Vanessa Paradis, Camille Le Fil e Brazilian Girls. Fantasiava um encontro repentino, ao acaso, em que ele diria: “Vem comigo”.

O encontro aconteceu. De alguma forma acabou traduzindo meu olhar, e depois do “Oi, como você tá? Ah tô bem e você? Ah tô bem também” disse com um sorriso tranquilo: Nos conhecemos em um época errada. Nós ainda vamos nos encontrar e tudo vai acontecer como deveria. A gente se vê! Até mais”.

Foi a última vez que vi.

3 anos depois deste encontro, recebi um e-mail: “... então, ele deu entrada no hospital na sexta, nenhum amigo sabe muito bem o que aconteceu mas ele não resistiu e faleceu, eu sinto muito, fica bem”.


















Quantas vidas serão necessárias para a época certa acontecer?


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

um grande carnaval

Eu poderia ter feito dias incríveis para você;
Poderia ter transformado toda sua ansiedade em felicidade;
Poderia ter feito um universo diferente;
Poderia ter te amado daqui até pra sempre;
Mas não foi.







Atrás de uma caixa de som
Vi você desfazendo o tudo não feito,

                                                        o mundo perfeito.