quinta-feira, 10 de março de 2016

fim do verão

Pois eu falo da sinceridade. Agora o que acontece é algo nada surreal, é fora daqueles adjetivos que ficam bonitos, elegantes.

Eu falo da sinceridade marcada pela dança que nossas bocas fazem, do toque do meu dedo, do seu lábio, do seu cheiro, do meu esquecimento.







1,2,3,4.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A falsona do rolê





Naqueles dias fazia muito calor, o clubinho era apertado e a única coisa que eu pensava era numa cerveja gelada.
Mal sabia que enquanto ia ao bar, vários olhares cruzavam e criavam histórias onde a minha fidelidade era citada.
Tudo bem enquanto os banheiros estavam limpos. Ao som de guitarras os olhares continuavam e a ingenuidade da diversão me fascinava. Que pena.

5 anos depois carrego a faceta de falsona, aquela que sabia de tudo e protegia algum lado.
Eu só queria diversão e fui julgado por isso. Nunca nem soube o que aconteceu e até hoje você continua com sua desconfiança.

Não sou de desculpas e não me arrependo por não saber de nada. A partir daqui o azar é seu.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eae cara, rola rosto?



Entre as frestas das portas, olhos aparecem. Depois das 22h15 consigo escutar as inúmeras piscadas. O barulho é semelhante ao ruído que as patas das baratas fazem ao tocar a cerâmica da casa. Perturbador.   

Os olhos são de cor castanho escuro, castanho claro e esverdeado. Com 18, 42 e 54 anos, estão cheios de inveja, rancor, dor, raiva e ira.
Observam constantemente meus movimentos e não sei como, escutam minha respiração. Sabem o que estou sentindo. São vigias, guardas ocultos sem rostos.

As piscadas aumentam. Vou procurar compaixão preparando mais uma linha. Não me importo com os olhos, afinal, eles não são meus.
















Para onde seus olhos estão virados?



(photo by johnnys bird)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

meu amigo morreu



Eu tinha 18, ele tinha 33. Perguntou por telefone se por acaso eu teria um cabo que não lembro o nome, em 5 minutos chegou com um ipod cheio de músicas e descarregou  no computador.
Depois de copiar todas as suas músicas, me deu um beijo, pegou as chaves e disse até breve. 2 horas depois mandou um depoimento no Orkut dizendo que havia reencontrado uma grande paixão.

Quase todos os dias, durante 2 anos, escutei a playlist. Tinha Vanessa Paradis, Camille Le Fil e Brazilian Girls. Fantasiava um encontro repentino, ao acaso, em que ele diria: “Vem comigo”.

O encontro aconteceu. De alguma forma acabou traduzindo meu olhar, e depois do “Oi, como você tá? Ah tô bem e você? Ah tô bem também” disse com um sorriso tranquilo: Nos conhecemos em um época errada. Nós ainda vamos nos encontrar e tudo vai acontecer como deveria. A gente se vê! Até mais”.

Foi a última vez que vi.

3 anos depois deste encontro, recebi um e-mail: “... então, ele deu entrada no hospital na sexta, nenhum amigo sabe muito bem o que aconteceu mas ele não resistiu e faleceu, eu sinto muito, fica bem”.


















Quantas vidas serão necessárias para a época certa acontecer?


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

um grande carnaval

Eu poderia ter feito dias incríveis para você;
Poderia ter transformado toda sua ansiedade em felicidade;
Poderia ter feito um universo diferente;
Poderia ter te amado daqui até pra sempre;
Mas não foi.







Atrás de uma caixa de som
Vi você desfazendo o tudo não feito,

                                                        o mundo perfeito.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

a aparição de lídia


Quando equilibrista na corda branca, Lídia já sabia de toda minha rotina.

Sabia o horário do despertador, de quanto usava da soneca, a duração das orações diárias, os dias do banho quente e os dias de banho frio, os dias que conseguia alcançar o ônibus e os dias do táxi. O horário do meu trabalho, dos insights. Sabia quando a maconha era usada como ativador de apetite ou fonte de criatividade e foco. Sabia o horário de saída, e principalmente, dos treinos.

Lídia sabia que era na escola de circo, no treino de equilíbrio na corda branca, o momento certo para uma conversa.
Depois de 21 dias de observação, resolveu iniciar um diálogo.

Eu estava lá no alto, atravessando a linha, bem no último terço, quando o coração acelera ao máximo e eu paro para um cigarro (seguindo orientações de que este é o momento certo de treinar a parada na linha branca, fumar e continuar o caminho, obtendo intenso aproveitamento), que algo congelou no ar a fumaça da baforada e falou bem ao meu ouvido:




 "_Por minha causa você ficará na história."

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A jaulinha

Existe uma jaulinha
pintada de branco
com animais estampados:
garoupa
onça-pintada
mico-leão-dourado
e arara.
Esta jaulinha bem cheirosinha
boa que só até veuve clicquot tem.
Vamos lá
não fique acanhado,
entre comigo,
lá é bonito.
Só tem um porém,
você deve deixar
aqui tudo o que têm,
principalmente as ideias,
elas são proibidas



não podem entrar.