terça-feira, 24 de novembro de 2015

meu amigo morreu



Eu tinha 18, ele tinha 33. Perguntou por telefone se por acaso eu teria um cabo que não lembro o nome, em 5 minutos chegou com um ipod cheio de músicas e descarregou  no computador.
Depois de copiar todas as suas músicas, me deu um beijo, pegou as chaves e disse até breve. 2 horas depois mandou um depoimento no Orkut dizendo que havia reencontrado uma grande paixão.

Quase todos os dias, durante 2 anos, escutei a playlist. Tinha Vanessa Paradis, Camille Le Fil e Brazilian Girls. Fantasiava um encontro repentino, ao acaso, em que ele diria: “Vem comigo”.

O encontro aconteceu. De alguma forma acabou traduzindo meu olhar, e depois do “Oi, como você tá? Ah tô bem e você? Ah tô bem também” disse com um sorriso tranquilo: Nos conhecemos em um época errada. Nós ainda vamos nos encontrar e tudo vai acontecer como deveria. A gente se vê! Até mais”.

Foi a última vez que vi.

3 anos depois deste encontro, recebi um e-mail: “... então, ele deu entrada no hospital na sexta, nenhum amigo sabe muito bem o que aconteceu mas ele não resistiu e faleceu, eu sinto muito, fica bem”.


















Quantas vidas serão necessárias para a época certa acontecer?


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

um grande carnaval

Eu poderia ter feito dias incríveis para você;
Poderia ter transformado toda sua ansiedade em felicidade;
Poderia ter feito um universo diferente;
Poderia ter te amado daqui até pra sempre;
Mas não foi.







Atrás de uma caixa de som
Vi você desfazendo o tudo não feito,

                                                        o mundo perfeito.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

a aparição de lídia


Quando equilibrista na corda branca, Lídia já sabia de toda minha rotina.

Sabia o horário do despertador, de quanto usava da soneca, a duração das orações diárias, os dias do banho quente e os dias de banho frio, os dias que conseguia alcançar o ônibus e os dias do táxi. O horário do meu trabalho, dos insights. Sabia quando a maconha era usada como ativador de apetite ou fonte de criatividade e foco. Sabia o horário de saída, e principalmente, dos treinos.

Lídia sabia que era na escola de circo, no treino de equilíbrio na corda branca, o momento certo para uma conversa.
Depois de 21 dias de observação, resolveu iniciar um diálogo.

Eu estava lá no alto, atravessando a linha, bem no último terço, quando o coração acelera ao máximo e eu paro para um cigarro (seguindo orientações de que este é o momento certo de treinar a parada na linha branca, fumar e continuar o caminho, obtendo intenso aproveitamento), que algo congelou no ar a fumaça da baforada e falou bem ao meu ouvido:




 "_Por minha causa você ficará na história."

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A jaulinha

Existe uma jaulinha
pintada de branco
com animais estampados:
garoupa
onça-pintada
mico-leão-dourado
e arara.
Esta jaulinha bem cheirosinha
boa que só até veuve clicquot tem.
Vamos lá
não fique acanhado,
entre comigo,
lá é bonito.
Só tem um porém,
você deve deixar
aqui tudo o que têm,
principalmente as ideias,
elas são proibidas



não podem entrar. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

5 copos de catuaba




entre lugares de céu escarlate e nuvens estáticas
onde a bebedeira é curada com cocaína,
sua dúvida fez surgir um unicórnio que o levou para
o mundo ideal.

  
ele optou por voltar.

 
achou tudo muito simpático,
muito colorido,
muito escrachado.
  
aos 25 anos a volta também é um caminho.

domingo, 8 de junho de 2014

sem lágrimas no cerrado



Lídia observava os pássaros, a linha do horizonte, as árvores não muito verdes, os frutos exóticos; alguns ela tateava para ter certeza da verdade naquelas imagens. Apalpava para memorizar de outras formas.
 _Lídia, seus vestidos estão prontos, as bagagens acabaram de chegar.
O grito cortou as memórias do dia que estava no fim.
Ela olhava o baú como se desdenhando, mas lá no fundo Lídia presava muito por aqueles vestidos. As pequenas dores e desconfortos causados em ocasiões do passado estavam presentes nos tecidos. Enquanto ela vestia determinadas peças alguns momentos voltavam.
_Bobagem passada.
Cada dia era repetido. 
Para Lídia ali não tinha muita distinção, os dias da semana, o fim de semana. Sem escola de arte, sem exposições, sem noite, do que serviria contabilizar?
Lídia passava por entre os fuxicos e captava cada palavra dita. Procurava adequar aquele ritmo de conversa aos seus projetos e desta forma não se sentia ofendida, até considerou tudo como material para referência.
Não se sabe se era a postura, o olhar, o comportamento ou o dinheiro que a família tinha que acabavam por formar uma blindagem em Lídia. Os comentários e conversinhas maldosas não eram impedimentos para seus diversos caprichos, que o pai atendia com prontidão.
_Por favor, avise a meu pai que quero esta lista de materiais para pintura, vinhos e a presença de meu amigo europeu.

...



Um dia depois do outro. Depois que seu pai perdeu as ações na bolsa, falindo instantaneamente (e desencadeando uma sucessão de eventos, entre eles o suicídio do patriarca em um quarto de hotel barato, com um tiro na cabeça) seu lema era este, “um dia depois do outro”.
Abandonou as aulas de História da Arte e virou operário em uma fábrica próxima.

...

_Lídia, aqui é onde podemos imortalizar memórias. Nós já temos a fórmula. Podemos fazer.
_Agora só quero criar estas lembranças com você. Já que temos a fórmula podemos ficar mais tranquilos.
_Até depois do oceano?
_Até lá depois e bem no meio.

 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

18 segundos de paixão




[na escada de saída/entrada da estação de metrô]

 _cara, me ajuda?
 _é que... meu, perdi minha carteira, tô só com o vale-refeição e não tenho grana pra voltar.
os olhos azuis provocaram. péssimo.
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                  _toma aqui mano. 
                   _eu já fui tão ajudado hoje, 
                     _não custa  
                      (tentativa de compensação).