
Seu único sopro na realidade emitia sons estranhos. Nunca tinha ouvido aquelas palavras antes, mas de alguma forma tudo aquilo era familiar.
Pois é, ele não resistiu ao vício, ligou e fez tudo ser consumado. Tudo ser como antes.
Inventou pensamentos. Sentiu azia. Foi ao banheiro e vomitou sangue com pequenas letras manchadas de preto. Ajoelhou e abraçou a cuba sanitária. O cheiro do desinfetante fazia com que os azulejos tomassem formas monstruosas.
Acordou no sofá xadrez. Olhou em volta. O patriarca preocupado com a conta de luz, apagou a lâmpada. Como consolo deixou a TV ligada no canal de desenhos. Lisergia estava em cartaz naquele mês de chuva. Era a única companhia e emoção que existia.
Os amores irreais dançavam sobre seu estômago. O café amargo tinha feito um grande buraco ali e a invenção de outra dor mascarava aquela queimação diária. Todos os dias, ao caminho do trabalho, o buraco gritava. Ele mandava fumaça cinza pra dentro. Ela brigava com o buraco, tentando preencher o vazio que existia, nunca ganhava. A dor só piorava e a profissão médico não existia em seu banco de dados. A juventude é bela, a pele é boa e o cabelo sedoso com cachos soltos ao vento. Pra que envelhecer?
Sem avaliar a situação, decidiu optar pela autodestruição. Nada mais fazia sentido naquela noite. Telefonemas não atendidos, paixão carnal, mentiras em forma de sorrisos. Ele avaliava o porquê de tudo enquanto explodia em seu nariz pequenos suicídios.
As fagulhas de fogo faziam ele lentamente esquecer todos os motivos da nóia noturna. Reavivou o pensamento. Agora o foco era o trabalho, o título que ainda não tinha escrito e o quanto ele flutuava durante o dia dentro daquela fonte azul. O barulho de água lembrava a cidade onde morava. Tudo era familiar, e o dia, pelo menos o dia, era um grande sonho em formato triangular.
Do nada teve um insight. Decidiu valorizar tudo que era familiar e deixar as invenções pra ficção. Ele tem a cura pra tudo. Ele tem a cura pra toda a dor. Ele tem a sua própria salvação. Tem dificuldades com novos ambientes, com novas ideias, com novas pessoas. Talvez se ele se esforçar em lembrar onde tudo era familiar, encontre na lembrança a vida que tinha, e a cura será automática.
Eu torço por ele.